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O que ouvi do médico foi que era hipocondríaca”: Viver com intolerância à lactose

Maria Silva (nome fictício) tem 47 anos e um longo caminho percorrido, desde os 36, para se concluir que não só era intolerante à lactose, como sofria também de uma “alergia” ao glúten.

Desde então, os desafios que enfrenta com as suas restrições alimentares são bastantes: desde os sintomas que tem caso ingira alimentos com estas substâncias à dificuldade em encontrar alimentos alternativos que a satisfaçam, passando pelas dificuldades em lidar com as opiniões de quem desconhece a sua condição.

Viver com intolerância à lactose: Maria Silva

Como e há quanto tempo desconfiou que poderia ser intolerante à lactose e ao glúten?

Aos meus 36 anos, há 11 anos, portanto, comecei a vomitar compulsivamente e a ter dores de estômago que pareciam facas cortantes que se cravavam nas minhas costas. Além disso, sentia azia e, se bebesse leite, tinha fortes dores abdominais e os vómitos intensificavam-se. Entre várias idas ao médico de família e análises ao sangue, nada se concluiu e o que ouvi do médico foi que era hipocondríaca.

Como é que se confirmou o diagnóstico?

4 anos depois, aos 40 anos, fui ao hospital da minha zona de residência, onde me foi diagnosticada intolerância à lactose. Nessa sequência, após várias consultas, recebi a notícia de que não só era intolerante à lactose como também “alérgica” ao glúten. Já estava com 42 anos.

Eu tinha dores no corpo e nas articulações, sentia cansaço e muito sono, ar no estômago, vómitos, cabelo muito enfraquecido, sensação de que tinha bichinhos a percorrer o corpo, tinha manchas nos braços, na cara e no abdómen, cuja comichão e dor só acalmavam através de um banho com água muito quente. Além disso, tinha uma sensação no estômago e na boca que me faziam sentir como se estivesse queimada. A partir daí, com a ajuda do médico, elaborámos uma lista dos alimentos que me causavam essa queimação: leite, iogurtes, natas, queijo, bolos, bolachas, fritos, batatas, brócolos, couve, couve-flor, espargos, massa, ovos e todo o tipo de enchidos ou comidas processadas.

Quais os principais sintomas que tem se consumir lactose e glúten?

Se ingerir lactose, o que sinto é inchaço e dores abdominais, diarreia de 10 em 10 ou de 15 em 15 minutos, azia, vómitos e uma sensação de queimação. Dependendo da quantidade que ingerir, estes sintomas podem durar 2 a 5 dias.

Já se comer algo com glúten, sinto uma tontura, seguida de um formigamento a percorrer o corpo de cima a baixo e sinto uma picadela como se fosse um inseto a ferrar. Começam a nascer manchas amarelas ou rosáceas, que se multiplicam e provocam uma comichão desesperante. Sinto ainda a barriga inchada e dores de estômago e, passados 15 a 20 minutos após ter comido, vomito o alimento com glúten que tiver ingerido, fico com uma sensação de queimação desde o estômago até à boca, fico sem forças, com dores musculares no corpo e sofro de insónias. 

Teve de retirar por completo a lactose e o glúten da sua alimentação?

O aconselhamento médico que tive foi para não ingerir de todo os alimentos que contêm lactose e glúten, pelo que tive mesmo de os retirar.

Que alternativas aos produtos lácteos e com glúten costuma consumir e porquê?

Vou tentando variar, para não enjoar nem me sentir indisposta.

Às vezes, como queijo sem lactose, mas não me livro de uma dor de barriga. De vez em quando, bebo leite magro sem lactose Mimosa, mas se o consumir uma vez por dia, ao fim de 4 dias já não faço a sua correta digestão. Também, esporadicamente, como papa de bebé sem lactose Sinlac, pois sinto falta de algo que me dê energia para não sentir fraqueza, e iogurtes de soja ou sem lactose sólidos ou líquidos.

Relativamente a opções sem glúten, o pão sem glúten é amargo e sem sabor e muito duro,  dependendo das marcas. A alternativa é o pão de cereais, mas não posso comer todos os dias. A massa sem glúten também não é saborosa e não dá para confeccionar e guardar para o dia seguinte, pois fica com sabor a azedo. Já experimentei massa de farinha de arroz, mas, na verdade, é uma opção muito triste, que não  me satisfaz . 

As bolachas sem glúten são outro pesadelo: têm farinha de batata, leite em pó ou ovos (aos quais sou alérgica à gema, podendo apenas comer a clara). As bolachas do tipo água e sal sem glúten contêm imenso sal; as bolachas de arroz ou milho não matam a fome. É muito complexo… Uma das soluções para mim são os cereais de flocos de milho.

Qual das duas restrições é mais fácil de gerir: a lactose ou o glúten?

São as duas condições muito complexas e idênticas, onde nada é fácil ou ligeiro… O melhor mesmo é não ingerir.

Quais são, para si, os principais desafios de lidar com estas restrições alimentares?

Enfrento vários desafios, nomeadamente:

  • Tolerar as críticas da família, amigos e conhecidos que apontam o dedo e dizem que não como para não ser gorda.
  • Ver os outros a comer sem terem de ter atenção ao que comem.
  • Sentirmo-nos sozinhos na nossa refeição.
  • Ignorar os olhares dos outros.
  • Gostar de determinado alimento e saber que não posso comer.
  • Ter de estar sempre a ler rótulos.
  • Sair de casa para passear e ter levar o nosso lanche.
  • Ir a casamentos ou batizados e passar fome porque não posso comer o que há.

Que conselhos daria a quem está agora a começar a lidar com uma intolerância alimentar?

Aconselho a ir com calma, porque isto não é o fim do mundo. Quando alguém lhe disser para comer algo, porque não vai morrer só por aquele bocadinho, que se lembre de que será ele/ela que vai sofrer e sentir a dor e o desconforto. Por isso, deve sempre lembrar-se de que eles e o seu corpo é que sabem os seus limites.

Tenho 47 anos e não foi fácil chegar aqui…. É  a aceitação e compreensão sobre a condição que sofremos que fazem o nosso bem-estar. Não importa se é Natal, Páscoa, batizado ou casamento: tudo é produzido e confecionado para os outros e cada um é que tem de olhar por si.


NOTA: O conteúdo das respostas é da exclusiva responsabilidade da sua autora, que pediu para não ser identificada.

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