Sobre intolerância à lactose

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É possível desenvolver intolerância à lactose?

À exceção das crianças que nascem com défice congénito de lactase, tanto o défice primário como o défice secundário de lactase são condições que surgem nalgum momento da vida. A grande diferença entre ambas as condições está na sua reversibilidade: enquanto a intolerância primária é irreversível (ou seja a capacidade de digerir a lactose, uma vez perdida, não é possível de recuperar), a intolerância secundária, sendo causada por outros distúrbios, é, geralmente, uma condição temporária.1

Assim, neste artigo, explicamos-lhe como é que surge cada tipo de intolerância e em que altura da vida é que o seu desenvolvimento é mais comum.

Como surge a intolerância à lactose?

O leite materno é, de entre os leites de todos os mamíferos, um dos que contém maior teor de lactose.2 Neste sentido, a atividade de lactase, que permite a digestão da lactose e que começa a ser detetada na mucosa intestinal logo no período embrionário, atinge o seu pico após a primeira exposição do recém-nascido ao leite.3 Sendo esta uma capacidade essencial durante os primeiros meses de vida dos seres humanos, em que o leite materno é o único alimento ingerido, após a amamentação, a maioria dos humanos começa a perder progressivamente a capacidade de digerir a lactose.3,4

Nesta fase, dois tipos de grupos podem surgir: as pessoas que mantêm a atividade da lactase na idade adulta, ou seja, que continuam a ter capacidade de digerir a lactose, e o grupo da lactase não-persistente, ou seja, das pessoas com baixos níveis de produção de lactase. Neste último caso, geralmente, os sintomas de intolerância à lactose surgem apenas quando a atividade da lactase atinge níveis inferiores a 50%.5 Além disso, a manifestação de sintomas de intolerância depende não só deste fator fisiológico, mas também de fatores relacionados com o consumo, nomeadamente, a quantidade de lactose ingerida, o tipo de produtos lácteos (como referimos neste artigo, nem todos os produtos lácteos têm o mesmo teor de lactose) e o consumo simultâneo ou não com outros alimentos.1

Esta é, na verdade, a forma como surge o défice primário de lactase. Já o défice secundário de lactase surge em pessoas com persistência de atividade da lactase, ou seja, que, após o período de amamentação, mantiveram a sua capacidade de digerir a lactose. Assim, a intolerância surge quando alguma outra condição de saúde causa lesões ou desequilíbrio do funcionamento normal do intestino delgado, o que acontece, por exemplo, devido a patologias do trato gastrointestinal (nomeadamente a gastroenterite viral, a doença celíaca, a doença de Chron e até a má-nutrição severa).6 Assim, o diagnóstico clínico é essencial para reverter esta deficiência enzimática.

Em caso de se suspeitar que é um fator secundário que está a causar a intolerância à lactose, pode ser necessário realizar testes para diagnosticar potenciais patologias de origem intestinal, tais como um exame às fezes, uma biópsia intestinal ou testes sanguíneos.6 A recuperação parcial ou a total reposição da capacidade de digestão da lactose pode demorar alguns meses, já que a lactase é a última dissacaridase (enzima que digere os dissacarídeos) a retomar a sua atividade normal, após um distúrbio.7 Isto acontece porque a lactase é a dissacaridase mais superficial e mais sensível que se encontra na mucosa intestinal, logo, a mais pequena alteração pode causar uma deficiência temporal desta enzima.8

A intolerância à lactose pode surgir em qualquer idade?

O défice primário de lactase, isto é, a dificuldade do organismo em digerir a lactose causada pela perda progressiva da produção da enzima lactase pelo nosso organismo1, surge, geralmente, entre os 2 e os 12 anos de idade.6 Assim, a intolerância à lactose é uma condição rara em crianças com menos de 2 anos.9

Já o défice secundário de lactase pode ocorrer em bebés nascidos prematuramente, caso o intestino delgado ainda não esteja completamente desenvolvido no momento do nascimento. Por outro lado, quando causado por outras condições, este tipo reversível de intolerância pode surgir em qualquer idade. 

Além disso, à medida que a idade avança, o corpo vai naturalmente produzindo uma quantidade cada vez menor da enzima lactase, o que pode resultar no desenvolvimento, em qualquer fase da vida, de intolerância primária à lactose.10

Assim, caso suspeitemos de intolerância à lactose, a decisão mais acertada será consultar um médico ou outro profissional de saúde, para um melhor acompanhamento da situação.

  1. Primeras preguntas [Internet]. No lactosa. Asociación de intolerantes a la lactosa España. [citado 21 de Junho de 2021]. Disponível em: https://lactosa.org/la-intolerancia/primeras-preguntas/
  2. Holsinger VH. Lactose. Em: Wong NP, Jenness R, Keeney M, Marth EH, editores. Fundamentals of Dairy Chemistry [Internet]. Boston, MA: Springer US; 1988 [citado 22 de Junho de 2021]. p. 279–342. Disponível em: https://doi.org/10.1007/978-1-4615-7050-9_6
  3. Deng Y, Misselwitz B, Dai N, Fox M. Lactose Intolerance in Adults: Biological Mechanism and Dietary Management. Nutrients [Internet]. 18 de Setembro de 2015 [citado 16 de Março de 2021];7(9):8020–35. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26393648/
  4. Romero-Velarde E, Delgado-Franco D, García-Gutiérrez M, Gurrola-Díaz C, Larrosa-Haro A, Montijo-Barrios E, et al. The Importance of Lactose in the Human Diet: Outcomes of a Mexican Consensus Meeting. Nutrients [Internet]. 12 de Novembro de 2019 [citado 16 de Março de 2021];11(11). Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31718111/
  5. Deng Y, Misselwitz B, Dai N, Fox M. Lactose Intolerance in Adults: Biological Mechanism and Dietary Management. Nutrients [Internet]. 18 de Setembro de 2015 [citado 21 de Junho de 2021];7(9):8020–35. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26393648/
  6. Mattar R, de Campos Mazo DF, Carrilho FJ. Lactose intolerance: diagnosis, genetic, and clinical factors. Clin Exp Gastroenterol [Internet]. 5 de Julho de 2012 [citado 22 de Junho de 2021];5:113–21. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3401057/
  7. Vandenplas Y. Lactose intolerance. Asia Pac J Clin Nutr [Internet]. 2015 [citado 22 de Junho de 2021];24 Suppl 1:S9-13. Disponível em: https://apjcn.nhri.org.tw/server/APJCN/24%20Suppl%201/S9.pdf
  8. Rosado JL. [Lactose intolerance]. Gac Med Mex [Internet]. Setembro de 2016 [citado 22 de Junho de 2021];152 Suppl 1:67–73. Disponível em: http://www.anmm.org.mx/GMM/2016/s1/GMM_152_2016_S1_067-073.pdf
  9. Falcão I, Mansilha HF. Alergia às Proteínas do Leite de Vaca e Intolerância à Lactose. Port J Pediatr [Internet]. 28 de Março de 2017 [citado 22 de Junho de 2021];48(1):53–60. Disponível em: https://pjp.spp.pt//article/view/9507
  10. Frothingham S, Marengo K. Can You Develop Lactose Intolerance? [Internet]. Healthline. 2019 [citado 22 de Junho de 2021]. Disponível em: https://www.healthline.com/health/can-you-develop-lactose-intolerance